Livro: TEATRO DE MÁSCARAS

O livro TEATRO DE MÁSCARAS foi organizado pelos professores Valmor Nini Beltrame e Milton de Andrade e lançado em 2010. Editora da Universidade do Estado de Santa Catarina.

Entre os articulistas temos Felisberto Sabido Costa, Elizabete Lopes, Claudia Contin, Marianne Consentino, Paulo Balardim, Carmencita Palermo, Tácito Borralho, Heloisa Cardoso e Léon Chancerel.

Quer conferir na integra, clique em: Teatro de Máscaras ou em https://www.researchgate.net/publication/302353863_Teatro_de_Mascaras

APRESENTAÇÃO

No final do século XIX e durante o século XX a máscara estimulou o trabalho de diretores e pedagogos do teatro engajados na renovação da arte teatral. As contribuições da máscara para tais mudanças podem ser percebidas em duas direções nas práticas de diversos artistas: na busca por uma nova teatralidade, abrindo perspectivas para a criação de espetáculos fundados principalmente na exploração do gesto, do movimento e da imagem, e em experimentações sobre um novo modo de interpretar, constituindo desse modo um elemento importante na formação do ator.

As concepções e o modo como as máscaras foram utilizadas no referido período certamente diferem de acordo com a prática de cada artista, dramaturgo, diretor e o contexto em que viviam. Para Vsevólod Meyerhold (1874–1940) e Evguêni Vakhtángov (1883- 1920), na Rússia, a máscara foi um poderoso recurso cênico para teatralizar o teatro e criar encenações que se opunham ao teatro naturalista. Para Lugné-Poe (1869-1940) e Alfred Jarry (1873-1907), com a encenação de Ubu Rei, no Théâtre de l´Oeuvre em Paris, ela contribuía para a instalação do grotesco na cena. Antonin Artaud (1896-1948), impactado com as máscaras balinesas, vê nelas o caminho para a recuperação da teatralidade perdida no teatro textocentrista que de certa forma predominava então na Europa. Edward Gordon Craig (1872-1966) propõe a substituição do ator pela Übermarionette, compreendida como o intérprete inteiramente coberto por uma máscara, impedindo-o de mesclar suas emoções e personalidade na representação da personagem. Jacques Copeau 8Teatro de Máscaras (1878-1949) cria a máscara noble e funda uma pedagogia para a formação do ator, cujos desdobramentos reverberam ainda hoje, como máscaras neutras, na formação de jovens artistas: basta lembrar as gerações que passaram pela Escola de Jacques Lecoq (1921- 1999), em Paris. Bertolt Brecht (1898-1956) a utiliza em seu teatro épico com a perspectiva de evidenciar contradições no comportamento no Gestus de personagens.

Em todas essas iniciativas — é importante insistir — as máscaras contribuíram para a renovação da arte teatral a na organização de procedimentos e propostas para a formação do ator.

No Brasil, o trabalho com máscaras ganha visibilidade a partir dos anos de 1980 com ações simultâneas de grupos de teatro e de professores universitários. Os Grupos Moitará, do Rio de Janeiro; Fora do Sério, de São Paulo; e o Stravaganza, do Rio Grande do Sul, para citar apenas três importantes grupos brasileiros, iniciam suas atividades no ano de 1988, usando a máscara seja como elemento constitutivo do espetáculo, seja no treinamento do ator. No mesmo período são criados diversos cursos superiores de teatro e algumas Universidades incluem o ensino do Teatro de Máscaras em seus programas curriculares.

Na Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, o ensino do Teatro de Máscaras acontece desde o ano de 1988, com o objetivo de contribuir para o conhecimento das possibilidades expressivas desse fazer artístico como linguagem teatral, de colaborar na formação do ator e no trabalho do ator animador no Teatro de Formas Animadas. Os vínculos entre Teatro de Máscaras e Teatro de Animação são evidentes uma vez que os princípios que regem o uso da máscara pelo ator são equivalentes à animação do títere ou do objeto.

Com a organização do presente livro, o Grupo de Pesquisa Po- éticas Teatrais pretende colaborar com as discussões sobre o Teatro de Máscaras e estimular a realização de pesquisas, principalmente junto ao Programa de Pós-graduação (Mestrado e Doutorado) em Teatro, ao qual o Grupo está vinculado. A colaboração dos artistas professores e pesquisadores de diversas universidades brasileiras e estrangeiras foi fundamental para esta publicação.

Felisberto Costa, Professor na Universidade de São Paulo – USP, colabora com um estudo chamando a atenção para a “redescoberta” das máscaras no teatro brasileiro, ao situar como grupos se apropriam dela de diferentes maneiras e as práticas desenvolvidas em Universidades do nosso país. Ao mesmo tempo, convida o leitor a pensar nas máscaras como experiências humanas singulares que transitam indistintamente pelos domínios físico, mental e espiritual.

A professora Elizabete Lopes, uma das pioneiras no uso da máscara na formação do ator no Brasil, analisa as contribuições de Jacques Copeau e como seus ensinamentos foram incorporados e modificados por seus seguidores espalhados por diversos países. Simultaneamente, apresenta suas próprias concepções e o modo de atuação como pedagoga do teatro.

Claudia Contin, diretora da Escola Experimental do Ator, em Pordenone, Itália, contribui com um alentado estudo no qual explora a categoria “material” com que se concebem e se constroem os diversos tipos de máscaras. A autora mostra que os materiais são desencadeadores de complexas reflexões que denotam visões de mundo, culturas, diferentes idéias sobre a máscara, instigando o leitor a utilizar a expressão Teatro de Máscaras, no plural. Grande parte do texto é dedicada às máscaras da Commedia dell’Arte, e conclui que o que as “eterniza” é o seu uso pelo ator.

A diretora da Cia. Traço de Teatro, Mariane Consentino, analisa a máscara do clown e os procedimentos pedagógicos para a aprendizagem da arte do Palhaço. A autora afirma que seu texto é um relato apaixonado sobre suas próprias experiências vividas como atriz e encenadora.

O Diretor Teatral e Professor, Paulo Balardim, da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, destaca a prática contemporânea do Teatro de Máscaras associada a recursos tecnológicos. Hoje é comum o uso de máscaras eletrônicas comandadas por controle remoto, o que se tornou objeto de pesquisa e experimentação entre grupos de teatro.

Carmencita Palermo, Professora da Escola de Estudos sobre Linguagens Asiáticas da Universidade da Tasmânia, Austrália, contribui com um estudo sobre o Wayang Topeng, tradicional teatro- -dança com máscaras da Ilha de Java, Indonésia. O estudo resulta de suas pesquisas e da sua convivência direta junto a mestres balineses com os quais aprendeu a dançar.

Tácito Borralho, Professor da Universidade do Maranhão – UFMA, apresenta um amplo registro da diversidade de máscaras brasileiras presentes em nossos folguedos, em nossas manifestações populares também conhecidas como danças dramáticas.

A Professora Heloisa Cardoso nos oferece um estudo detalhado sobre materiais e procedimentos para a confecção de diversos tipos de máscaras, sintetizando parte da atividade à qual se dedica há anos na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.

O último texto que integra o presente livro é um precioso estudo de Léon Chancerel (1886-1965), escrito em 1941, do qual o Professor José Ronaldo Faleiro, tradutor do estudo, guarda em sua biblioteca um exemplar da edição original. O texto, por certo, amplamente utilizado por alunos e professores do Centro Dramático fundado por Chancerel, em Paris, nos fornece elementos importantes para compreender a importância da máscara na formação do ator para o novo teatro preconizado pelo diretor e pedagogo francês.

O conjunto de textos aqui reunidos, além de contribuir para pesquisas na área do Teatro de Máscaras, reafirma o compromisso do Grupo de Pesquisa Poéticas Teatrais do Centro de Artes da UDESC com o estímulo à realização de novos estudos e práticas artísticas junto aos mestrandos, doutorandos, bolsistas de iniciação científica e grupos de teatro e dança.

Valmor Níni Beltrame e Milton de Andrade – Organizadores.